Wednesday, February 15, 2006



Tem dias que é só colocar os microfones na posição correta e apertar o rec.

Wednesday, February 08, 2006

Mixar apenas uma música numa manhã. Nada mais fácil, certo? Que nada! Veja em 8 passos como uma tarefa simples como essa foi por água abaixo na manhã de hoje, e tudo por causa de coisas simples:

1. A banda gravou num estúdio mais baratinho e depois resolveu mixar com a gente.
Eu vivo dizendo aqui pra vocês abrirem o olho quando forem gravar num estúdio barato demais. Em geral, o preço da hora é diretamente proporcional à qualidade dos equipamentos e/ou dos técnicos que trabalham nesse estúdio. A não ser, claro, que o dono do estúdio esteja ali só por hobby, mas isso já é outro papo.
Então, se você decidiu pagar R$ 20,00 por hora de gravação, esteja preparado para uma ratoeira daquelas. E aí, o que tem acontecido na maioria das vezes é que o que você economiza no estúdio baratinho acaba saindo bem caro na hora de mixar num estúdio mais legal.


2. O cara do estúdio baratinho ligou pra perguntar como deve exportar os arquivos, já que ele grava em Nuendo pirata rodando em PC montado em casa.
Há hoje em dia uma série de maneiras de se transportar um trabalho de uma plataforma de gravação para a outra. E entenda-se aqui por plataforma de gravação tanto o tipo do computador quanto o software que foi usado. Ah, adat e gravador de rolo também são plataformas de gravação. De qualquer forma, o ideal é exportar do jeito que foi gravado e a patir do zero da timeline, pra que tudo possa ser facilmente sincronizado, mesmo que não tenha sido gravado com metrônomo.

3. Eu disse que ele exportasse os audio files no formato original que ele tinha gravado, e ele disse que era em 24bits/48kHz.
Se gravou em 24bits/44.1kHz, então exporta assim. Nada de mudar pra 16bits ou pra 48kHz, porque isso não vai ajudar em nada. Só vai atrapalhar, inclusive, já que é difícil achar alguém por aqui que use dither.

4. O cara da banda chega meia-hora atrasado, com os audio files em dois CDs, um dos quais deu pau e não leu em nenhum Mac daqui do estúdio.
Não faz mal nenhum chegar na hora marcada, principalmente quando se está pagando por essa hora, não é? E, depois de exportar as pistas separadas, trate de verificar se a mídia de armazenamento está funcionando direito. Copie de volta os arquivos para o HD a partir da mídia que você usará para transporte. E nada de ficar economizando com mixaria. Compre uma mídia de marca confiável e faça mais de uma cópia, pra não acontecer de dar pau numa e você ter que voltar pro estúdio pra gravar outra.

5. Dos arquivos que estava no CD que funcionou, nenhum estava em 24bits/48kHz, mas sim em 16bits/44.1kHz. E, para dificultar mais ainda, todos haviam sido exportados em estéreo, incluindo baixo e voz.
O quê? Voz estéro? Baixo estéreo? Isso mais parece má vontade do que realmente ignorância técnica na hora de exportar as pistas. Afinal, eu não acho que o cara tenha gravado um microfone só em um canal estéreo, mas é bem possível que na hora de exportar o técnico tenha deixado de trocar o tipo de arquivo de estéreo pra mono. É nesses pequenos detalhes que se gasta um tempo desnecessário na hora de ajeitar antes de mixar. Pelo menos o cara não mandou audio files em 44.1kHz e em 48kHz na mesma sessão.

6. Uma hora e meia depois do início da mixagem, o cara da banda estava na casa de um amigo tentando pegar os audio files que faltavam. Enquanto isso, a mixagem seguia sem a bateria.
É estranho, mas aí a gente começou a timbrar o que a gente tinha mesmo, sem a bateria. Não sem antes limparmos todo o vazamento de headphone que havia nos momentos de suposto silêncio. Aliás, mixar hardcore melódico sem a bateria faz a música ficar no limite de virar pagode romântico.

7. A guitarra já veio com reverb.

Nada contra rever em guitarra. Desde que na medida certa. Reverb é um caminho som volta. Portanto, se você vai mixar em outro lugar e com outras pessoas, grave suas guitarras sem reverb. Deixe pra o cara que vai mixar decidir o quanto de reverb suas guitarras ou qualquer outra coisa na sua música vai ter. É melhor assim do que querer tirar reverb na mixagem e não poder.

8. Duas horas depois do início da mixagem o cara da banda liga e diz que não tá conseguindo pegar os arquivos no HD do amigo e passar para um pen drive. Mixagem abortada.
Aí vai além da minha compreensão. Segundo o cara da banda, quando ele tentou compiar o que faltava pra um pen drive, os arquivos davam o mesmo pau que deram aqui. Va entender esses PCs...

Sunday, February 05, 2006

Leo, Zé e Eu

Ainda bem que hoje não é primeiro de abril, senão ninguém ia acreditar que a Diversitronica está de música nova. A canção se chama Elefante e Castelo, em homenagem a uma linda estação de metrô e a um elefante que dá uns latidos no meio da música. E eu só usei a palavra latido porque não sei como se chama o som que o elefante faz. Para ouvir é só ir em http://www.tramavirtual.com.br/artista.jsp?id=6640.

Tuesday, January 10, 2006

Gravar em Pro Tools é lindo. Gravar com os melhores microfones nos melhores preamps também é muito legal. Mas aí vai meu conselho de hoje: nenhum bom equipamento supre a falta de um bom produtor.

A relação entre quem tá tocando e quem tá gravando tem que ser de total confiança. Afinal de contas, a obrigação do músico é chegar ao estúdio preparado pra gravar e com os equipamentos em ordem. Quem tem que decidir quais microfones usar e em que posição microfonar é o cara do estúdio, aquele que tá do outro lado do vidro, gravando o que os músicos tocam.

Aí o que acontece em alguns estúdios de gravação é que eles contratam um cara pra operar as coisas durante a sessão de gravação, e esse cara realmente só faz isso. Bota um microfone na frete e outro atrás do amp, como se isso fosse uma regra. Como se o jeito que o guitarrista toca, o modelo dos pedais, do amp e da guitarra não importassem e o som de qualquer guitarrista fosse igual. Já vi isso acontecer com bateria e até com voz. O cara do estúdio tem lá um microfone "de voz" e aí só usa esse, na mesma posição, ligado no mesmo preamp, pra qualquer voz que vai gravar.

É claro que em muitas vezes (a maioria, eu diria), o artista não tem grana pra ficar experimentando combinações de microfones com preamps e diferentes microfonações, restando ao cara do estúdio tentar fazer a coisa o mais rápido possível. E é aí que está o pulo do gato. O cara faz uma microfonação genérica, grava tudo no mais ou menos pra ajeitar depois na mixagem. O que ninguém entende ainda é que depois é uma palavra que rima com prejuízo no vocabulário de quem está pagando pra gravar. Deixar pra arrumar depois o som do que já podia ter sido gravado legal leva muito mais tempo do que se levaria testando microfonações mais adequadas.

E aí que entra o cara de confiança que cuida pra que tudo dê certo no final, e que vem a ser chamado de produtor. Com ele na técnica, o músico realmente só tem que se preocupar em tocar direito e em manter o seu instrumento em boas condições. O resto é o produtor quem cuida. O produtor também é o elo entre a musicalidade da banda e a tecnicalidade do estúdio, mesmo que não seja ele que esteja operando a gravação.

Como a situação de grana das bandas não tá das melhores e contratar um produtor significa um gasto a mais no orçamento do disco, o caminho quase sempre acaba sendo gravar no estúdio do produtor. O que é bem melhor, inclusive, do que escolher um estúdio se baseando apenas nos equipamentos que ele tem. Afinal de contas, de nada adianta o estúdio ter os melhores equipamentos, se o operador deles bota tudo a perder.

Friday, January 06, 2006



Sabe aquela história da gravação em fita que é melhor que a gravação digital? Pois é verdade. Fizemos recentemente a nossa primeira experiência de passar umas coisas pra fita, durante a mixagem, e depois passar de volta pro computador, e o resultado não podia ser melhor.

Aliás, poderia ser melhor se estivéssemos gravando em duas polegadas, mas o nosso recém adquirido Tascam de meia polegada já dá um super gás nas nossas gravações. É só gravar com o sinal muito alto, na fita em velocidade máxima pra os ataques aparecerem bem mais definidos e os agudos da voz e dos pratos ficarem muito mais bonitos.

E olhe que tudo deve ficar bem melhor com fita nova, coisa que a gente ainda não pôde experimentar. Por enquanto, com fita velhinha mesmo e sem sync, a gente vai engordando e melhorando ainda mais o som das nossas produções.

Thursday, December 29, 2005

É como eu sempre digo: toda avacalhação tem seu preço. Mas vamos do começo.

Todo mundo sabe que o preço dos computadores só faz diminuir, à medida que a velocidade dos seus processadores só faz aumentar, e que isso tem permitido a qualquer pessoa fazer suas musiquinhas em casa, com uma qualidade quase profissional. E, como todo mundo sabe, quanto melhor a qualidade, maior o arquivo. Junte a isso a consolidação da internet como a principal via de distribuição musical dos novos tempos e aí apenas uma coisa me vem à cabeça: mp3.

Que mp3 nunca foi lá essas coisas, isso todo mundo já sabe. Afinal, que mágica é essa que encolhe uma música pra um décimo do seu tamanho original e não compromete a qualidade? Claro que há formas de se fazer um mp3 com qualidade melhor, mas aí, obviamente, teremos arquivos maiores. À medida que os serviços de internet banda larga começam a oferecer conexões mais rápidas, a tendência é que a qualidade das músicas distribuídas pela internet melhore um pouquinho. Parece que é isso que tá acontecendo, inclusive.

Ultimamente eu andei baixando uns discos ripados num formato chamado flac. O flac aparentemente reduz o tamanho do arquivo pela metade, o que teoricamente não estraga tanto a qualidade do áudio. Nas comparações que fiz entre discos em flac e em mp3, notei que o disco em flac tem qualidade de som semelhante à de um disco ripado em mp3 a 320kbps, só que o arquivo flac é muito maior que o mp3. E aí, inevitavelmente, veio a prova de fogo, que foi testar o cd original de fábrica, o mesmo cd ripado em flac e o mesmo cd em mp3.

É tudo uma questão de referência. Ouvindo primeiro o mp3, tá tudo ok. Aí quando se ouve o flac, o mp3 já parece uma desgraça e o flac parece ser igualzinho ao cd original. Mas aí, quando se ouve o cd original, as diferenças ficam mais absurdamente evidentes e a conclusão é uma só: nada se compara ao cd original. Os testes foram feitos com o novo cd do Arcade Fire, o novo de Paul McCartney e o novo do Nine Inch Nails, e só provou que pra ser uma cópia fiel do original, só mesmo uma ripada sem compactação.

Friday, October 28, 2005

Lição do dia: uma banda ensaiada vale mais que mil cagadas.

Lembra daquela banda que uma vez eu escrevi um post sobre masterização que falava de uma banda que tava sem grana e queria gravar só a bateria com a gente? Pois chegou esse dia de gravar a bateria. Eram sete músicas, sem metrônomo e, se a galera estivesse de cima, o baixo já ficaria também, junto com a bateria. E tudo teria que ser feito das 10 da manhã até as 6 da tarde.

Aí os caras chegaram com a bateria na hora certa. Só que resolveram trocar todas as peles, já com o taxímetro rodando. Depois de afinarmos tudo, constatamos que o som da caixa era muito ruim, o do bumbo igualmente e que o pedal do cara tava faltando uma porca, que fazia com que a mola soltasse a cada pisada. Aí tome tempo pra assumar tudo isso.

Depois, quando ligamos o baixo, constatamos que o jack estava podre, coisa que também já devia ter sido reparada pela banda num outro momento em que a hora não custasse dinheiro. Aí tome mais tempo pra abrir o baixo e refazer algumas soldas. Quando terminamos de aprontar tudo, já era duas da tarde. Uma hora de pausa pro almoço e às 3 começamos a gravar a primeira bateria.

Em cinco das sete músicas o baixo e a bateria já ficaram bons no primeiro take, e as outras duas saíram no segundo, mostrando que o tempo que a galera deixou de gastar cuidando dos instrumentos deve ter sido convertido em horas de ensaio. A coisa rolou tão bacana depois de resolvidos os problemas que a galera resolveu gastar mais um pouquinho e gravar também as guitarras conosco.
Era bom demais pra ser verdade. Ou talvez eu tenha sido tabacudo demais pra só ter descoberto agora. O fato é que o Ableton Live não exatamente lida com aquivos mp3, mas simplesmente os descompacta para uma pasta chamada Decoding Cache. A localização dessa pasta pode, inclusive, ser mudada lá nos preferences, onde também pode ser especificado o tamanho que ela ocupará no seu hd. Dessa forma, o tão aclamado suporte a mp3, que veio para viabilizar a utilização de músicas inteiras no Live, nada mais faz do que descompactar o mp3 em wav e deixar lá no seu hd pra quando você quiser usar mp3 novamente.

Aí estava eu observando quais as pastas que ocupam mais espaço no meu laptop quando me deparei com essa tal de Decoding Cache, da qual eu nunca tinha ouvido falar. A danada tinha quase 8Gb. Quando abri, lá estavam todos os mp3s que eu já tinha aberto no Live 5, só que em formato wav. Eu então apaguei a pasta e limpei a lixeira só pra ter certeza de que era mesmo aquilo que eu desconfiava. Não deu outra. Quando joguei a primeira música em mp3 dentro do Live, os markers estavam todos lá, do jeito que eu tinha configurado, mas o gráfico foi se formando aos poucos. Aí foi só voltar na pasta Decoding Chache e ver que a mesma música estava lá, em wav, confirmando minha teoria.

E nem tem como contornar isso. Uma vez viciado nos recursos do Live 5, só me resta abrir mão de meus preciosos gigabytes em nome da cachorrada eletrônica que o programa me proporciona.

Thursday, October 27, 2005

Já está no ar a nova música da Diversitrônica, que é meu projeto de música eletrônica junto com Leo e Zé. Na verdade, a música é um remix que fizemos para uma faixa do Nervoso, chamada Não Quer Dar Explicações, mas não deixa de ser uma música nova. Diz a lenda que a revista Outra Coisa vai encartar um cd de remixes do Nervoso, e, se ele gostar dessa faixa aí que fizemos, estaremos incluídos nesse cd. Por enquanto, tudo que posso oferecer é um mp3 em 32kbps, só pra vocês ouvirem como ficou.

A produção dessa música aconteceu de um jeito muito doido. Eu cheguei um dia no estúdio com Zé e nós começamos a catar coisas que eu já tinha programado mas nunca tinha usado em nehuma música. Foi assim que achamos todos os sons que aparecem na música, menos os que Zé tocou na guitarra de Haymone, que foi gravada limpa e processada já dentro do computador. Aí Leonardo chegou e deu um grau nos sons da bateria, pra depois eu colocar tudo na mesma nota, no caso, fá sustenido, já que o vocal original parecia ser em lá maior, e a gente não é muito chegado em escala maior.

Aí foi a hora de abrir o dvd de arquivos que o Nervoso nos mandou e constatar que lá dentro havia 391 aquivos. Como a gente não queria saber como era o original e todas as partes vieram picotadas em centenas de arquivos, nós resolvemos sortear alguns e usar, sem nem saber do que se tratavam. O único critério é que o sorteio seria feito entre os arquivos maiores, que a gente imaginou serem os que apareceram na versão final da música original.

Um desses arquivos, inclusive, só tinha uma palavra, que foi prontamente robotizada num vocoder. Outro desses arquivos tinha uma voz que parecia ser a principal, só que o andamento era bem mais lento do que o remix que estávamos fazendo. Mas isso não foi problema, já que a gente não queria usar a voz principal do jeito que ela estava mesmo. Então, depois de tentarmos diversos métodos de destruição de ritmo e melodia, optamos por usar um gate que cortava a voz no ritmo, mais ou menos como acontecia quando você cantava na frente de um ventilador ligado. Também picotamos um trecho da voz principal, colocamos cada pedacinho numa tecla do teclado e ficamos apertando as teclas aleatoriamente, pra criar um elemento de voz que tivesse ritmo, mas fosse de melodia indefinida. Depois de passarmos esse sinal por uns pedais de drive e de tremolo, o negócio ficou parecendo a voz da professora do Charlie Brown, e aparece no meio e no fim da faixa.

Depois foi só arrumar tudo isso de uma forma que funcionasse como música e o resultado vocês podem ouvir aqui.

Thursday, October 13, 2005

A moda agora é masterizar em São Paulo. A banda pode não ter grana pra gravar o disco, mas sempre dá um jeito de masterizar em São Paulo. Eu sou o maior incentivador dessa prática. Acho que R$ 2.300,00 não é caro quando se leva em conta os benefícios que uma master bem feita proporciona ao seu trabalho.

Mas de nada adianta masterizar no melhor estúdio do Brasil se a gravação e a mixagem estão capengas. Acho que é isso que tá movendo o povo atualmente: a falsa promessa de que uma boa master salva qualquer coisa. Realmente, uma boa master pode melhorar muito um trabalho ruim, mas dessa forma, não faz muita diferença se você fez essa master no estúdio A ou no B.

A master está para a música assim como a cobertura está para o bolo. Se o bolo for muito ruim, a cobertura não se salvará, por melhor que seja. Se o bolo for muito bom, a cobertura vai dar o sabor que faltava. Se você não tem grana pra fazer um disco direito, não invente de masterizar num lugar bacana porque você estará jogando seu dinheiro fora.

Essa semana chegou uma banda lá no estúdio com aquele velho papo de já estrear gravando um disco inteiro. Como estavam sem grana, resolveram fazer o seguinte: gravar bateria conosco, gravar todo o resto e mixar em um estúdio brodagem e voltar para fazer a masterização conosco. Faz todo sentido, se analisarmos sob o prisma de uma banda que nunca gravou. Os caras querem um bom som de bateria, aí resolveram gravar conosco. E, já prevendo as deficiências que sempre surgem quando se grava no estúdio brodagem, voltariam para masterizar conosco. Aí é onde mora a ilusão da galera. Masterização não é pra dar um jeito em disco mal gravado. Além do mais, para ter o som de bateria que querem, além de gravar conosco eles teriam que mixar conosco também.

Masterizar fora é muito bonito, mas só é eficaz se o disco já estiver bacana.

Thursday, October 06, 2005

A pergunta que mais me fazem é: por que vocês usam Logic, e não Pro-Tools? Eu, que sempre dou as respostas mais simples, respondo: usamos o Logic porque é muito mais barato que o Pro-Tools. Enquanto uma cópia do Logic custa R$ 3.000,00 (se você conseguir comprar lá fora, claro), um Pro-Tools simplezinho na Quanta custa R$ 25.000,00. E Pro-Tools LE não conta, claro.

É aí que se aplica aquela famosa teoria da relação 90-50. Ela consiste no seguinte: sempre haverá no mercado uma alternativa que faz 90% do que a concorrente mais cara do segmento, só que custando 50% do seu preço. o Pro-Tools HD é a melhor, e portanto mais cara alternativa em plataformas de gravação não-linear. E o Logic proporciona 90% das capacidades de um Pro-Tools HD, custando bem menos da metade do preço.

Claro que é muito bonito dizer que seu estúdio grava em Pro-Tools, e para algumas pessoas essas Digis e M-Boxes realmente antendem. Mas, sob alguns aspectos, até um Nuendo pirata rodando num bom PC pode ser mais poderoso que um Pro-Tools LE.

Além do mais, eu estou cada dia mais desencanado dessa parte nerd e me importando mais com quem criou, executou ou produziu. Afinal, há discos geniais que são gravados em equipamentos ruins, e há discos ruins que são gravados em equipamentos ótimos.

Sunday, October 02, 2005

Hoje eu tava lembrando que certa vez eu fui a um lugar desses onde instalam som automotivo, para - advinhem! - instalar o som no meu carro. Deixei o carro lá e voltei no horário combinado com aquela sensação de que eu devia ter ficado lá supervisionando o instalador de som. É que antes eu tinha descoberto que aqueles instaladores eram freelancers e ganhavam da loja R$ 10,00 por cada kit de cd player e alto-falantes instalado, o que leva qualquer cidadão a crer que o cara faz tudo nas carreiras pra poder pegar logo outro cliente.

Dito e feito: o som tava lá, todo bonitão, mas left, right, fron e back estavam todos embaralhados. Claro que pedi pro cara ajeitar, e claro que ele fez com a maior má vontade do mundo. Mas essa não foi a pior parte. Eu não consegui me segurar e perguntei:

eu: tu se liga aí no positivo e no negativo quando tá ligando os alto-falantes?

instalador: não precisa. o alto-falante toca normal de todo jeito.

eu: mas aí pode acontecer de a fase ficar invertida, né?

instalador:
e daí? quando inverte a fase o máximo que acontece é o grave ficar fraco.
As últimas semanas nos levaram à seguinte conclusão: editar pandeiro, batida por batida, faz o tempo passar muito devagar. Jogar Quake 3 nos faz perder a hora e chegar em casa atrasados.

Wednesday, September 28, 2005

Arretado é ir na Rua da Condórdia bater um papo com os vendedores de lojas de eletrônicos. Os caras vivem vendendo plugues, fios e todo tipo de quinquilharia eletro-eletrônica, e aí cada um que entenda mais que o outro sobre o assunto.

Outro dia um desses falou que Neutrik não era uma marca de plug, e sim um modelo fabricado pela Santo Ângelo.

Mas absurdo mesmo foi o dia em que eu tava por lá comprando uns plugues e vi uma daquelas peças que têm dois RCA fêmea de um lado e um banana macho mono do outro. Aí rolou o seguinte papo:

eu: Pra que alguém usaria uma peça dessas afinal? Pra transformar um sinal estéreo em mono?

cara:
Não. É pra economizar canal da mesa de som. O cara bota aqui um sinal estéreo no rca e aí só precisa usar um canal mono da mesa de som, em vez de dois.

eu: Então vira mono no final das contas!

cara: Claro que não. A mesa transforma o sinal em estéreo de novo. O som não sai das caixas da esquerda e da direita? Então tá estéreo de novo.

eu: Mas é claro! Como eu não pensei nisso antes?

Tuesday, September 27, 2005

Todos precisam de amigos. Eles estão sempre lá para nos dar uma força. Mas tenha certeza de que muito provavelmente você não precisará dos seus amigos quando for gravar seu disco. O estúdio é um lugar muito chato para quem não está envolvido no processo de produção. Então, pra quê levar uma tuia de amigos para um lugar onde eles terão que passar horas em silêncio e quietos? Eu mesmo nunca toparia passar a tarde sentado e calado, mas parece que tem gente que adora isso.

Falo isso porque já me vi rodeado por 17 pessoas durante a gravação de uma banda que tinha apenas quatro integrantes. Era amigo, namorada, amiga da namorada, roadie, aquele amigão que sempre dá uma força nos shows e aquele outro que sabe todas as letras. Ah, tem também aquele que emprestou o instrumento pra a galera gravar e que fica ali, pra ver se tá tudo beleza. Quando é uma bateria emprestada, então, aí vem sempre mais de um, que é pra ajudar a carregar.

Aí, com uma galera dessas dentro do estúdio, há sempre celulares tocando, barulho de gente sentando e levantando do sofá, saindo e entrando da sala, conversando baixinho, mexendo nos discos ou dedilhando o violão, bem de levinho, como se assim não fosse atrapalhar. Pior é quando todo mundo resolve ficar em pé, observado o músico solitário gravar ali do outro lado do vidro. Já aconteceu de um músico render muito mais depois que aquela multidão de amigos desistiu de observá-lo como se fosse um animal exótico no cativeiro.

Então, meu conselho de hoje é: deixe para receber os elogios dos amigos quando tudo já estiver pronto. Exceto, é claro, se o seu amigo é quem tá pagando pra você gravar.
Nunca invente no computador uma coisa que você não consegue tocar ao vivo. A não ser, é claro, que o computador vá executar essa coisa durante a gravação. Caso contrário, você estará criando um problema gigante que só poderá ser resolvido com muita edição e estouros no orçamento. Isso é uma coisa que está acontecendo até com certa freqüência lá no estúdio. Há muito tempo atrás chegou um sanfoneiro pra gravar num disco de forró pé-de-serra. O arranjo era lindo, mas tinha sido todo composto no computador, e o zé sanfona em nenhum momento experimentou tocar num instrumento real aquilo que ele inventou com um mouse. Resultado: o cara não era ágil o suficiente para fazer todas as sanfonadas que o arranjo exigia e descobriu, quando a luz do rec já estava acesa, que alguns registros da sanfona estavam bem desafinados. Dentre mortos e feridos salvaram-se todos, mas não custava nada o cara ter pego no instrumento (a sanfona, claro!) antes de gravar.

O mesmo aconteceu com o baterista que foi convidado pra gravar só porque sabia ler partitura. Na hora H o cara leu tudo certinho, mas a execução ficou uma droga. A técnica e a pegada do rapaz foram ofuscadas pela urgente necessidade de ler e executar com fidelidade aquilo que a partitura mandava.

Mais recentemente apareceu um disco pra gravar lá no estúdio em que todas as músicas foram compostas no computador. O disco soava lindo quando o Finale executava as notas com aquele sozinho general midi, mas aí o que parecia ser o método perfeito para gravar virou um pesadelo orçamentário. É que os músicos convocados para essa gravação nunca tinham ouvido falar das músicas, até o momento em que entraram no estúdio e receberam suas respectivas partituras. Por melhor que o cara seja, ele nunca vai fazer um take bacana assim, lendo uma partitura pela primeira vez. A solução? Gravar dezenas de pedaços e depois editá-los minuciosamente até formarem um take bom. E aí isso leva muito tempo. Sem contar que, quando dois instrumentos tocam juntos no midi do computador, é uma coisa. Já dois instrumentos de pele e madeira, gravados por dois seres humanos, é outra coisa bem mais complicada. As osciladas naturais de andamento, a afinação dos instrumentos e as diferenças de dinâmica acabam revelando deficiências de arranjo que o midi escondia. A solução? Mais edições, que levam mais tempo e gastam mais dinheiro. E, claro, uma regravadinha eventual quando o arranjo realmente não funciona na realidade.

É aí quando dizem que o computador traz soluções para problemas que não existiam antes de ele ser inventado.

Sunday, September 25, 2005

Uma coisa que sempre me intrigou foi: como é que aqueles caras conseguem cobrar tão barato pra passar vhs pra dvd? Pior é que eles passam fitas super 8 para dvd pelo mesmo precinho camarada. Semprei achei que o processo de passar película para digital fosse caríssimo, mas...

Recentemente eu tive a oportunidade de assistir a um desses dvds feitos a partir de vhs. Pelo que eu entendi, o cara cobra R$ 30 por dvd, e o processo é o mais básico de todos: ele bota a fita vhs pra rolar no videocassete e vai gravando no computador. E depois queima o dvd, sem nenhum tipo de correção de cor, edição, menu ou capítulos. Esse dvd específico que eu assisti me deixou desconfiado que o pc do cara não agüentava muito bem o trampo de digitalizar imagens em movimento. No decorrer da exibição há vários frames que congelam e depois a imagem corre pra sincronizar com o áudio.

Mas a melhor parte é o processo que o cara usa pra passar super 8 pra dvd. Pelo que parece, ele projeta o filme numa tela e filma em vhs. Aí ele passa o vhs pro computador e o resto vocês já sabem. Cheguei a essa conclusão porque durante a parte que veio da fita de super 8 às vezes passava uma daquelas linhas horizontais que rolam quando a fita vhs tá meio suja ou amassada.

Mas como o que importa é o fato de tudo estar ali em um disquinho, pronto para ser exibido a qualquer momento e em qualquer lugar, a galera vai ganhando seu dinheirinho, mesmo que nivelando o mercado por baixo. Bem por baixo.

Tuesday, September 20, 2005



Se alguém aí estiver a fim de desmontar um Powerbook, é só chamar. Esse aí pelo menos funcionou de novo depois de montado. E não sobrou nenhum parafuso, inclusive.

Monday, September 12, 2005

Acho que o dia-a-dia lá do estúdio poderia perfeitamente virar um reality show, desses que já acontecem em restaurantes e salões de beleza.

O Caso:
A moça me ligou dizendo que precisava mixar umas faixas para um cd que seria dado de brinde aos clientes de um restaurante. É o tipo de trabalho bacana de se fazer. Consistiria em pegar as 16 faixas e mixar, como se estivesse tocando numa festa. Marcamos para ela aparecer no estúdio com as faixas, só que ela atrasou-se uma semana.

A Análise
As músicas eram muito bacanas, só que a mixagem ia ser bem trabalhosa, já que eram todas em ritmos bem diferentes. Mesmo assim seria uma coisa bacana de fazer, mas sempre há sempre há um "mas".

O Mas
Ela apareceu com as faixas às 20h30 de uma segunda e queria tudo pronto para a terça. E ainda falou que só dependia da nossa disponibilidade de passar a noite trabalhando nisso, porque o prazo ela não mudaria, mesmo tendo se atrasado em uma semana para nos passar o trabalho.

A Nossa Solução
Depois de passar o dia inteiro e parte da noite editando pandeiro e sabendo que o dia seguinte seria bem parecido, não tem amor à música que faça o cara parar pra pensar em um jeito de mixar um rock lento com um drum'n'bass. Não pegamos o trabalho.

P.S.: Esse papo me lembrou do dj super querido das festinhas legais que chegou pra tocar numa festa mas não conseguia fazer o som sair do mixer. Aí, como eu estava lá, ele me chamou e perguntou o que havia de errado.

O ganho do canal estava no talo e todos os leds estavam acesos, sem piscar. Ainda bem que esse cara não conseguiu fazer o som sair do mixer nesse momento, senão seria a destruição certa do p.a.. E, depois de baixar o ganho para uma posição razoável, tudo que eu precisei fazer foi mover o crossfader para o lado esquerdo, que era o lado do canal que estava tocando. Mais pelo sucesso da festa do que pela reputação desse dj, eu desliguei o crossfader e deixei o cara mixando nos volumes verticais mesmo.

Tuesday, September 06, 2005

Nesse mundo internetizado em que todos têm acesso às mesmas ferramentas virtuais, fica cada vez mais complicado tirar um som daqueles que o cara ouve e pensa "como que esse cara fez isso?". E som original é o canal. Lembro que quando todo mundo achava que o futuro era a síntese digital, os sons do DX7 tomaram conta da música pop, já que praticamente ninguém era capaz de programar novos sons naquele teclado.

Uma coisa que eu sempre gostei de fazer foi usar softwares ou equipamentos de um jeito não tradicional. O resultado pode ser muito melhor do que usar o troço como todo mundo usaria. O Ableton Live, por exemplo, é um dos softwares que eu mais tenho usado ultimamente e que esconde umas funções muito doidas que, quando usadas caretamente ninguém nota. E quase ninguém tem a idéia de aloprar com elas. Eu tive, e aconselho o seguinte:

Coloque um loop qualquer em um slot qualquer, e dê dois cliques nele (figura 1). Aí vai abrir a janela SAMPLE, que é aquela janela onde você ajeita os markers e onde você determina de que maneiras o Live vai esticar o seu loop pra entrar no tempo da sessão (figura 2).





O que eu mais gosto de fazer ali é colocar o transpose em +48 semi-tons. Isso faz a afinação do loop subir 4 oitavas, e, conseqüentemente, muitos harmônicos inesperados aparecerão. Isso acontece porque o Live vai continuar mantendo o loop no tempo da sessão, e a cada 12 semi-tons que você subir no transpose o loop vai ficar com metade do tamanho original. Então basicamente o que você está fazendo é alecerar o loop até que ele fique com um oitavo de seu tamanho original, ao mesmo tempo que o Live estica o loop para que ele mantenha o mesmo tamanho original e se mantenha no bpm da sessão. O resultado disso é que os transientes vão pro saco e a granulação gerada por esse estica e puxa picota os harmônicos criados pela transposição do pitch, criando padrões parecidos com seqüências de notas. Esse efeito se chama degradação digital e não acontece no reino do áudio analógico, onde a afinação está diretamente ligada à velocidade do áudio.

Mas a cachorrada não pára por aí. À direita do botão de transpose há dois botões, um de :2 e um de *2. Esses botões controlam a relação entre o loop da sessão e o loop que está no slot. Basicamente o que acontece é que :2 coloca duas repetições do loop no mesmo intervalo onde antes só havia uma. Apertando :2 novamente, o Live coloca quatro repetições onde havia duas e assim por diante. O botão *2 faz exatamente o contrário. E aí as variações de harmônicos e de seqüência de notas são praticamente infinitas e igualmente imprevisíveis.

Um bom exemplo disso é esse loop. Quando transposto em +48 semi-tons ele vira isso. Apertando :2 ele vira isso aqui. Novamente :2 e ele fica assim. Nesse ponto é legal experimentar com valores diferentes no transpose. Valores negativos tendem a gerar umas texturas malucas. Daí pra frente você vai aloprando e renderizando o áudio em outra pista, criando assim loops muito doidos e impossíveis de se determinar a origem.

Friday, September 02, 2005

E aí, como num daqueles seriados enlatados do canal Sony, uma mulher bate na porta do estúdio e diz: "só vocês podem me ajudar".

O Caso:
A mulher tinha um desses serviços de filmagem de eventos. Tudo ia bem até o final de semana passado, quando ela filmou um casamento e, ao assistir à fita, notou um "ruído" durante toda a gravação.

A Análise
Se a mulher não tivesse dito que aquele áudio era de um casamento, eu teria achado que ela tinha filmado uma turbina de avião. Avião velho, inclusive.

O Procedimento
Depois de muito cancelamento de fase, eq, de-cliker, de-noiser, de-esser e coisas do gênero, o ruído foi embora. O que sobrou então foi o nada em forma de áudio, para desespero da mulher. Ainda assim, com um brilho de esperança nos olhos, ela nos pediu uma saída para aquela sinuca de bico em que se metera. Imagine só a coitada contando à noiva que a filmagem do casamento dela só agradaria aos parentes surdos.

A Nossa Solução
A gente recriaria o áudio da cerimônia, com ruídos ambiente e músicas de casamento e contrataríamos três atores para dublar as vozes do padre e dos noivos. Infelizmente a mulher não topou. Era um trabalho que eu gostaria de ter feito. De verdade.

Wednesday, August 17, 2005

Tenho muitos amigos e conhecidos que são técnicos de som. Essa é a classe que mais se arromba no meio artístico musical. É função do operador de som desmontar a bombas atômicas que são são alguns PAs que existem por aí e, às vezes, dizer ao dono do som como é que se liga as coisas direito. Para o público leigo, se alguma coisa dá errado durante o show, a culpa é de quem está em cima do palco. Só que na maioria das vezes o problema é da dobradinha som ruim-operador errado. Eu falo operador errado porque acho que cada banda devia trabalhar sempre com o mesmo operador. Com o tempo, o operador acaba se tornando o membro da banda que não está no palco e a banda vai sacando se aqueles apitos e são culpa do som ou do operador mesmo.

O que acontece hoje é que as bandas nem sempre têm grana pra botar um operador e aí ficam sujeitas à boa (ou má) vontade do sujeito encarregado de montar e ligar o som. Aí esse cara nunca ouviu falar da banda, ou acha que não é função dele fazer isso, ou não queria estar acordado tão tarde, ou não sabe operar som mesmo. O resultado é o que se vê por aí pelos shows da cidade. Se o cenário for um festival, então o pânico é generalizado, já que trocentas bandas com as mais diferentes formações tocam no mesmo som, com nenhum tempo pra mudar alguma coisa entre os shows. E tem também aquela situação da banda que é atração e não deixa ninguém mexer no som. Aí as outras que se danem. Como mesa com automação não é uma realidade por essas bandas, o jeito é tocar de qualquer jeito.

musical instrument digital interface

O MIDI é um negócio do cacete mesmo. Em vez de gravar o áudio do teclado, nós agora hoje em dia só gravamos o MIDI. É melhor para nós e para o músico, já que sem o MIDI, o que vai pro disco é aquilo que foi tocado. Claro que com tecladista não é diferente, e o recorta e cola da edição pode fazer milagres com um take ruim. Mas gravando o MIDI, dá pra ajeitar ou uma única nota errada no meio de um acorde. Dá até pra apagar uma nota ruim e desenhar uma que nunca existiu.

É que o MIDI grava só a digitação do músico no teclado e só depois é que nós mandamos essa digitação acionar o som. Dessa forma, o tecladista passa a pertencer ao grupo de músicos que não necessariamente precisam tocar direito para gravar num disco. Nesse caso, dá até pra chamar o mouse de instrumento musical.

Friday, August 05, 2005

Quando rolou aquela edição de bateria logo em uma das primeiras gravações de que participei, eu não tinha noção de que ali estava nascendo um novo passo no processo de produção musical: a edição. Situada entre a gravação e a mixagem, a edição é o que os gringos carinhosamente apelidaram de computer magic. Nela, virtualmente qualquer um é capaz de qualquer coisa. Pode-se consertar um errinho de um bom músico ou pode-se criar execuções incríveis de músicos apenas razoáveis.

E acabou que hoje em dia ninguém escapa da edição. Afinal, uma boa execução pode salvar uma música ruim, mas uma boa música nunca salvará uma execução ruim. E depois do advento da edição, qualquer coisa pode ser feita em estúdio. Aliás, ultimamente o método mais produtivo de gravação é gravar várias vezes a mesma coisa e depois pegar as melhores partes de cada take e juntar pra fazer um take perfeito. Isso leva muito mais tempo pra ser feito do que o músico gravar direito do começo ao fim da música, e tempo é dinheiro. Se os músicos gravassem direitinho do começo ao fim do disco, tenho certeza de que os custos para as bandas seriam 30% menores. Já fiz a conta na ponta do lápis.

Isso se aplica não só a quem toca, mas a quem canta também. Com o agravante que, quando um instrumento está desafinado, é só rodar a tarracha e fica tudo ok. No caso dos cantores, a tarracha quase sempre é o Autotune. Esse programa é tão sensacional que merece um parágrafo só pra ele.

O Autotune é um programa que permite colocar cada sílaba na sua devida nota. Ele primeiro escuta o que está gravado e depois mostra na tela a nota em que cada sílaba está. Cabe a você decidir pra onde puxar cada sílaba. Quando usado com sabedoria, o Autotune resolve a maioria das desafinações e passa despercebido. Quando usado deslavadamente ele deixa rastros inconfundíveis na voz do artista. Há músicas tocando no rádio em que o cara passou Autotune no cantor como quem passa massa corrida numa parede. Afinar a voz com Autotune é um paso que vem imediatamente após aquele tedioso processo de sair catando o melhor de vários takes pra criar o take perfeito. E se a música tiver mais de um vocal ao mesmo tempo, aí o Autotune é quase que regra hoje em dia.

Eu tenho a impressão de que uma boa execução é sempre melhor que uma edição, por mais cuidadosa e meticulosa que ela (a edição, claro) seja. Sem a necessidade de edições quilométricas, as músicas podem soar mais naturais e há mais tempo para experimentalismos de estúdio. Aliás, é uma pena que com o passar dos tempos a edição venha tomando o lugar desses experimentalismos e a figura do produtor funcione mais como "ajeitador".
No início eram as fitas. No "meu" início, claro, e ainda assim nem eram as idolatradas e quase extintas fitas analógicas. Eram aquelas digitais de adat, que todo mundo que via perguntava:

Jegue: "Essa fita dá pra usar no vídeo-cassete?"
Eu: "Dá sim, mas eu nunca usei."
Jegue: "Por que não? A imagem fica ruim?"
Eu: "Não. É que elas custam dez vezes mais que uma fita de vídeo."

Naquela época o esquema era gravar no adat e mixar na mesa mesmo, já passando pra um dat. Computador eu tinha, mas só usava pra seqüenciar os teclados via midi, através daqueles infames cabos que eram midi de um lado e paralelo do outro. Tinha também um programa chamado Wave Studio, que vinha grátis com a placa de som. Nesse programa só rolava o seguinte: copiar, colar, deletar e inverter, tudo em arquivos mono ou estéreo. Mais de dois canais era inimaginável na época.

Eu mesmo não botava nenhuma fé em gravação em computador. Eu achava que nunca ia existir um computador capaz de rodar os oito canais que um adat rodava, já que o meu se peidava pra rolar um arquivo estéreo mais longo. Mas eis que um dia chegou uma banda pra gravar e o baterista era muito fraco. Não musicalmente, mas fisicamente. O cara ia cansando durante a música, e aí a coisa ia ficando mais devagar e embananada.

A solução então foi mixar a bateria logo depois que ela foi gravada, de seis ou sete canais para um mix estéreo, já gravando no tal programa de recortar e colar. Sem nenhum sync, em tempo real e usando aquela entrada de linha que toda placa de som doméstica tem. Feito isso, os trechos em que o batera farrapava foram trocados por trechos mais certinhos, da mesma maneira que você troca palavras em seu editor de texto. Só que, quando mais pro começo da música fosse a edição, mas tempo demorava, porque havia todo o resto da música para ser recolocado pelo programa no lugar certo depois que a parte errada era substituída. Feito isso, todos os takes de bateria voltaram para dois canais do adat, ainda usando a saída de linha barulhenta da sound blaster, e assim o resto dos instrumentos pôde ser gravado.

Gravador de cd também não existia, portanto a galera que eu gravei no começo terminava lançando as coisas em fita k7 mesmo. E gravar k7 era em tempo real também. Bota a música pra tocar, até encher um lado. Aí pára, vira a fita, avança aquele espaço que não grava no começo, e bota pra gravar o resto. Isso pra cada fita. Aliás, tempo real era quem mandava soltar e prender naquela época.

Mixar um disco em tempo real significava dar o play na música, ir mixando até ela chegar ao fim, rebobinar até o começo, dar o play de novo e continuar a mixagem. Se a bateria tivesse só uma virada de tons lá pelo meio, aí era aula de paciência mesmo. Mas às vezes eu acho que isso faz um pouco de falta hoje em dia. A música dependia mais de bons músicos, bons instrumentos e bons ouvidos do que de copiar e colar.