Tuesday, September 06, 2005

Nesse mundo internetizado em que todos têm acesso às mesmas ferramentas virtuais, fica cada vez mais complicado tirar um som daqueles que o cara ouve e pensa "como que esse cara fez isso?". E som original é o canal. Lembro que quando todo mundo achava que o futuro era a síntese digital, os sons do DX7 tomaram conta da música pop, já que praticamente ninguém era capaz de programar novos sons naquele teclado.

Uma coisa que eu sempre gostei de fazer foi usar softwares ou equipamentos de um jeito não tradicional. O resultado pode ser muito melhor do que usar o troço como todo mundo usaria. O Ableton Live, por exemplo, é um dos softwares que eu mais tenho usado ultimamente e que esconde umas funções muito doidas que, quando usadas caretamente ninguém nota. E quase ninguém tem a idéia de aloprar com elas. Eu tive, e aconselho o seguinte:

Coloque um loop qualquer em um slot qualquer, e dê dois cliques nele (figura 1). Aí vai abrir a janela SAMPLE, que é aquela janela onde você ajeita os markers e onde você determina de que maneiras o Live vai esticar o seu loop pra entrar no tempo da sessão (figura 2).





O que eu mais gosto de fazer ali é colocar o transpose em +48 semi-tons. Isso faz a afinação do loop subir 4 oitavas, e, conseqüentemente, muitos harmônicos inesperados aparecerão. Isso acontece porque o Live vai continuar mantendo o loop no tempo da sessão, e a cada 12 semi-tons que você subir no transpose o loop vai ficar com metade do tamanho original. Então basicamente o que você está fazendo é alecerar o loop até que ele fique com um oitavo de seu tamanho original, ao mesmo tempo que o Live estica o loop para que ele mantenha o mesmo tamanho original e se mantenha no bpm da sessão. O resultado disso é que os transientes vão pro saco e a granulação gerada por esse estica e puxa picota os harmônicos criados pela transposição do pitch, criando padrões parecidos com seqüências de notas. Esse efeito se chama degradação digital e não acontece no reino do áudio analógico, onde a afinação está diretamente ligada à velocidade do áudio.

Mas a cachorrada não pára por aí. À direita do botão de transpose há dois botões, um de :2 e um de *2. Esses botões controlam a relação entre o loop da sessão e o loop que está no slot. Basicamente o que acontece é que :2 coloca duas repetições do loop no mesmo intervalo onde antes só havia uma. Apertando :2 novamente, o Live coloca quatro repetições onde havia duas e assim por diante. O botão *2 faz exatamente o contrário. E aí as variações de harmônicos e de seqüência de notas são praticamente infinitas e igualmente imprevisíveis.

Um bom exemplo disso é esse loop. Quando transposto em +48 semi-tons ele vira isso. Apertando :2 ele vira isso aqui. Novamente :2 e ele fica assim. Nesse ponto é legal experimentar com valores diferentes no transpose. Valores negativos tendem a gerar umas texturas malucas. Daí pra frente você vai aloprando e renderizando o áudio em outra pista, criando assim loops muito doidos e impossíveis de se determinar a origem.

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