Tuesday, September 27, 2005

Nunca invente no computador uma coisa que você não consegue tocar ao vivo. A não ser, é claro, que o computador vá executar essa coisa durante a gravação. Caso contrário, você estará criando um problema gigante que só poderá ser resolvido com muita edição e estouros no orçamento. Isso é uma coisa que está acontecendo até com certa freqüência lá no estúdio. Há muito tempo atrás chegou um sanfoneiro pra gravar num disco de forró pé-de-serra. O arranjo era lindo, mas tinha sido todo composto no computador, e o zé sanfona em nenhum momento experimentou tocar num instrumento real aquilo que ele inventou com um mouse. Resultado: o cara não era ágil o suficiente para fazer todas as sanfonadas que o arranjo exigia e descobriu, quando a luz do rec já estava acesa, que alguns registros da sanfona estavam bem desafinados. Dentre mortos e feridos salvaram-se todos, mas não custava nada o cara ter pego no instrumento (a sanfona, claro!) antes de gravar.

O mesmo aconteceu com o baterista que foi convidado pra gravar só porque sabia ler partitura. Na hora H o cara leu tudo certinho, mas a execução ficou uma droga. A técnica e a pegada do rapaz foram ofuscadas pela urgente necessidade de ler e executar com fidelidade aquilo que a partitura mandava.

Mais recentemente apareceu um disco pra gravar lá no estúdio em que todas as músicas foram compostas no computador. O disco soava lindo quando o Finale executava as notas com aquele sozinho general midi, mas aí o que parecia ser o método perfeito para gravar virou um pesadelo orçamentário. É que os músicos convocados para essa gravação nunca tinham ouvido falar das músicas, até o momento em que entraram no estúdio e receberam suas respectivas partituras. Por melhor que o cara seja, ele nunca vai fazer um take bacana assim, lendo uma partitura pela primeira vez. A solução? Gravar dezenas de pedaços e depois editá-los minuciosamente até formarem um take bom. E aí isso leva muito tempo. Sem contar que, quando dois instrumentos tocam juntos no midi do computador, é uma coisa. Já dois instrumentos de pele e madeira, gravados por dois seres humanos, é outra coisa bem mais complicada. As osciladas naturais de andamento, a afinação dos instrumentos e as diferenças de dinâmica acabam revelando deficiências de arranjo que o midi escondia. A solução? Mais edições, que levam mais tempo e gastam mais dinheiro. E, claro, uma regravadinha eventual quando o arranjo realmente não funciona na realidade.

É aí quando dizem que o computador traz soluções para problemas que não existiam antes de ele ser inventado.

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